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SUA COMPANHIA DE VIAGEM
LISBOA, A CIDADE DOS POETAS


Vínhamos da cidade do Porto com um vôo pela TAP. Era final de julho, um dia quente de verão. O piloto, como que adivinhando meu alvoroço, sobrevoou Lisboa, demorando-se para iniciar o pouso. Lá de cima pude ver o rio e o mar. Ali estava a cidade – toalha à beira mar estendida – edificada em sete colinas, onde o sol pousa e repousa, enchendo-a de meiguices primitivas de luz e de frescuras.

Lisboa é faceira e linda. Espelha-se nas águas azuis do rio Tejo e, mais adiante, ao ocidente, é banhada pelo Oceano Atlântico. Cidade privilegiada, sua área metropolitana é rodeada por águas doces e salgadas. Lisboa é deslumbrante, cheia de história e de cultura. É a rainha do Tejo, uma cidade florida e pitoresca, de beleza atemporal. A capital portuguesa tem nome de mulher, é feminina – a personagem cantada na obra de Eça de Queirós, a musa de muitas fados, a bela glorificada pelos turistas e a cidade amada por seus habitantes.

Encontro-me agora no centro de Lisboa, a assim chamada Baixa Pombalina. Demoro-me na Praça do Comércio, também conhecida como Terreiro do Paço, uma das maiores praças da Europa e “grande sala de visitas de Lisboa”. Os edifícios arcados em estilo neoclássico, abrigam hoje departamentos governamentais, assim como restaurantes e cafés. Aliás, aqui se localiza o café mais antigo de Lisboa, Martinho da Arcada, o preferido do poeta Pessoa. Ao sul da praça está o rio que está por se entregar ao mar. Ali no Tejo, de onde se vai ao mundo, partiram as naus e as caravelas, rumando para lugares desconhecidos e misteriosos. Em meio a essas águas, no Mar da Palha, a frota de Cabral se lançou ao caminho marítimo e marcou a história de nosso país.

Caminho em direção ao norte da praça e atravesso Arco Triunfal que me conduz à Rua Augusta, movimentada e bonita, a artéria principal da Baixa, onde os lisboetas estão a passear tranqüilamente. Embriago-me com a musicalidade de meu idioma que ouço por todos os lados. Minha Pátria é a Língua Portuguesa, dizia Pessoa. E eu identifico um pouco dela pelas ruas de Lisboa, recorda-me Salvador... Vejo mendigos e engraxates e me sinto familiarizada. Há aqui um sabor latino, um pouquinho de Brasil neste velho estilo arquitetônico um tanto mal conservado. Identifico muitos de nossos costumes, nossos modos. Muitas casas são ricamente enfeitadas por azulejos e com pequenos terraços onde seca a roupa lavada. Por todos os lados, há cafés e restaurantes que convidam para um descanso e para saborear um vinho verde. A cidade é cheirosa... Há cheiro de bacalhau, de flores, de castanhas assadas, de frutas maduras, de café, de pastéis... Sinto um aroma de cravo e de canela.

Lisboa é mestiça e alegre, mas traz em sua essência traços melancólicos, os mesmos dos fados. Ao visitá-la, nos envolve e nos cativa com seu jeito amistoso; ao deixá-la, carrega-nos de saudades. Marca-nos com o seu calor e deslumbra-nos com sua arte antiga. Ao palmilhar por Lisboa lembro-me de Saramago e procuro-o por entre a multidão. Mas eu não o encontraria tão fácil, pois já não mora mais na capital, infelizmente. Disse, certo dia, que a sua Lisboa já não existe: Está grande demais!

Percorro um labirinto de ruelas e vou descobrindo um pouco a atmosfera multicultural da capital lusitana milenar, que aliás, é mais antiga que Roma. Encanto-me com os velhos elevadores, com as igrejas e com as casas coloridas – uma casa portuguesa, com certeza! Há tantas ruas bonitas... Muitas delas já percorri, outras ainda haverei de andar. Piso nos belos mosaicos desenhados nos calçadões, trabalhos magníficos que pontuam para a beleza desta cidade.

Paralelamente à Rua Augusta está a Rua do Ouro, a Rua do Sapateiro e a Rua da Prata, nomes originais, especificando as atividades outrora ali realizadas. Há também, em outro quarteirão, a Rua da Alegria e a Rua da Rosa. Você não se sentiria feliz se morasse na Rua dos Desejos ou na Rua das Janelas Verdes? Que tal namorar no Beco da Amorosa ou na Rua do Paraíso? Sonhe, pois, com a Rua das Gaivotas, com a Rua do Alecrim e com o Paço da Rainha. Demore-se na Travessa da Boa Hora e tome um café na Rua da Esperança. No final da tarde, quem sabe, marque um encontro com seu amor na Rua das Flores. Você já viu em outro lugar ruas com nomes tão poéticos? E olhe que até tem a Rua dos Remédios, a Calçada de Estrela e... a Rua da Triste e Feia!

Estou enamorada, mas é hora de ir embora. Tenho certeza, porém, que vou voltar. Lisboa é convidativa, parceira e acolhedora, permitindo que participemos de seu ritmo e que conheçamos a sua gente. É uma das capitais mais bonitas da Europa, viva e autêntica, mantendo em seu caráter um ar folclórico de suas velhas colônias. Ainda há muitos segredos para descobrir, memórias a relembrar e lugares para visitar. Em cada esquina há uma história para ser contada que, de certo modo, são fragmentos de uma cultura que, num passado longínquo, foram levadas para nosso país pelas águas do Oceano Atlântico. Há um fio delicado e atávico que nos une e nos identifica... Um suave laço familiar.

Ilaine Kunz
ilaine@gmx.net
 

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